terça-feira, 21 de abril de 2009

O retrato de Madonna.


Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que a vi. Madonna, assim que foi-me apresentada. Foi um certo choque quando vi sua imagem, achei-a linda e intrigante, sim uma intrigante jovem,sensual, nua, `levemente grávida` e com sua áurea vermelha. Sua áurea vermelha foi o que mais me intrigou. Vermelha de quê ? De sangue ? De paixão ? Eu fico com a paixão, pois é paixão que passei a sentir por Ela. Minha paixão é tamanha que quis Ela somente pra mim. Decidi que iria reproduzi-la, me dedicaria arduamente até ter Madonna somente minha, para sempre, nua no meu quarto, uma verdadeira musa com toda sensualidade permitida a uma musa e com sua áurea. Ah, a áurea vermelha de paixão. Minha paixão.

Adorava admirá-la, conversava com Ela, que sempre mantinha sua expressão serena. Às vezes parecia que ia sorrir, ou então abrir os olhos, uma vez achei que fosse bocejar, mas no fim quem bocejou fui eu. Não adiantava, Ela sempre se mantinha delicadamente intacta.

Certo dia porém, quanto fui admirá-la, Ela havia mudado. Olhei novamente, não conseguia acreditar no que via, sua áurea estava amarela e radiante. Sua nudez havia desaparecido sobre um manto azul, sua juventude e sua expressão serena tinham desaparecido e dado lugar a imagem de uma senhora com uma expressão séria. Eu não queria aquela senhora de áurea amarela. Era uma senhora com uma expressão de alguém que espera para ser adorada. Não queria adorar-lá. Queria a minha Madonna de volta, com sua juventude e sua áurea ardente.

Madonna não voltava por mais que minhas lágrimas implorassem. Aquela senhora insistia em não ir embora e ainda cismava em me olhar com ternura, complacência, como quem mal sabe que é o próprio teor da minha ângustia. Não podia ser dessa forma, eu amava Madonna, adorava seu corpo, seus seios a mostra, sua expressão, tinha que fazê-la voltar pra mim. Peguei desesperadamente meus pincéis, minha tinta vermelha e tentei modificar sua áurea, mas por mais determinado que eu estivesse, não adiantava aquela áurea amarela não desaparecia . Foi então que num impulso senti uma dor lancinante, logo depois parei de sentir qualquer coisa que não fosse a vontade de rever minha amada. Ah, minha amada cuja áurea era de uma cor viva e intensa, uma cor de sangue, um sangue que jorrava do meu pulso esquerdo, com um pincel fiz com que aquela áurea voltasse a ser vermelha e que aquela teimosa senhora de manto azul voltasse a ser Ela, minha jovem nua e provocante, Madonna. Pintei euforicamente enquanto a tinta escorria no meu braço e gotejava no chão. Pintava cada vez mais enquanto notava que a imagem de minha adorada Madonna voltava. Quando enfim consegui tê-la de volta, completamente nua e vermelha, já estava tonto, minha vista escureceu e cai sobre Ela. Caimos, nós dois no chão, sobre um sangue vermelho de paixão.

Não podia enxergar mais nada mas pude sentir que estava com a cabeça sobre seus seios, pude sentir sua pele, seus cabelos, seu cheiro. Ah sim, pude sentir seu cheiro. Sentia que ela me segurava em seus braços, me acariciava, e então uma última imagem veio a mim, pude enfim ver seus lindos olhos negros, uma lágrima jorrava deles. Senti seus olhos fixados nos meus, nunca havia sentido tão intensamente a vida. E assim tão rápido a tive, tão rápido seus olhos estiveram em mim, até que Ela os fechou. Para sempre.

Leia Mais…

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mas que juventude é essa, Caetano?

"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem?"


Para quem pensa que o nosso grande mestre Caetano Veloso apenas faz música de ótima qualidade e adora dizer que tudo é lindo, precisa ouvir o histórico (e ácido) discurso do baiano no 3° Festival Internacional da Canção, veiculado pela TV Globo em setembro de 1968, onde ele dispara contra a platéia toda a sua indignação com relação ao quadro do país na época, principalmente no que cabe à situação da política e da música. Caetano "rodou a baiana" e lançou fortes críticas à postura dos jovens, comparando-os inclusive com aqueles que invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancaram o elenco da famosa peça Roda Viva, um dos símbolos da resistência à ditadura militar no país. Por fim sobrou para todo mundo, inclusive para o júri, que segundo Caetano, era muito simpático mas era incompetente.

Mas vamos fazer justiça ao Caetano, em dois aspectos: primeiro, o baiano é mesmo o sujeito calmo que todos nós conhecemos, e tal episódio se resume apenas ao festival, como o próprio Caetano lembra durante seu discurso, quando ressalva que "ninguém nunca me ouviu falar assim". Segundo, os jovens nunca foram lá aquilo que se espera deles, nem na época do discurso do Caetano, nem hoje. E olha que os jovens criticados por ele eram aqueles filhos do movimento hippie, que ouviam Beatles e Raul e liam Paulo Coelho (não que ler Paulo Coelho signifique alguma coisa de muito nobre, mas o que os jovens leem hoje?), que se organizavam nas universidades e fundavam partidos políticos, que conspiravam contra a situação política e social do país e que mais tarde saíram às ruas com as caras pintadas em nome da democracia. Se você visse mais de perto a juventude de hoje, Caetano, nem sei o que diria...

"O Problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!"

"Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender."

Escrevendo este artigo, cujo objetivo é refletir rapidamente sobre a postura atual do jovem brasileiro, me veio à cabeça aquela famosa canção do Renato Russo. Sabe, aquela, Geração Coca Cola? Então, tem um trecho onde o Renato canta assim: Somos os filhos da revolução; somos burgueses sem religião; somos o futuro da nação. Será? Renato pinta o jovem brasileiro, talvez metaforicamente, talvez procurando uma forma de instigá-lo, ou talvez com algum saudosismo, como aquele jovem esteriotipado: revolucionário, que quer mudar o mundo, batalhador, sonhador; um jovem ativo, participante da sociedade e construtor da mesma. Mas será que ele é? É claro, não podemos ser utópicos e pensar no jovem dos filmes norte-americanos, que é perfeito, embora não exista na vida real, mas ainda assim há que se estar atento à realidade da nossa juventude. E a questão é: essa realidade é preocupante! Agir, buscar, assumir a responsabilidade do desenvolvimento social e pessoal, tudo isso hoje em dia é, infelizmente, quando se trata do jovem, utopia sim. O jovem atual é preguiçoso, acomodado e passivo. Não lê, não sabe, não pensa, não melhora, não discute, não faz critica nem pinta o rosto de nada, a não ser da bandeira do time de futebol no final da temporada. O fato é que tudo isso está fora de moda. Isso mesmo! Completamente ultrapassado, demodé, "fora do tom", como disse também Caetano. Somos a geração da internet, do big brother brasil 9 (nove?), do orkut (ou seria OrkUtiii?), do sertanejo universitário, que por fim não passa de um repeteco daquela velha história do apaixonado arrependido (...), onde a dupla pode escolher entre imitar o Zezé di Camargo e Luciano ou imitar o Bruno e Marrone. Geração coca cola! Ou para quem gostar de Cazuza, uma daquelas exceções dentre os jovens do Caetano, numa inversão do significado que Cazuza atribuía: geração do "desbunde"!

"E vocês? Se vocês... se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!"


"Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!"



A música, a literatura, a política, a educação, enfim, a cultura brasileira de um modo geral está, mais do que nunca, sucateada pelos jovens. E é sim, Caetano, é essa a juventude que quer (ou pelo menos, que vai) tomar o poder. A juventude que sempre está a espera de quem alguém coloque a casa em ordem, que tome a frente e principalmente as decisões. E eu imagino como seria desagradável à você, Caetano, ícone da música brasileira e símbolo da luta pela democracia no nosso país, se soubesse que a grande maioria dos meus amigos da universidade (isso mesmo, da universidade) nunca sequer ouviram um disco seu. E mesmo que ouvissem! O que diriam de Tropicália, ou Alegria Alegria? Será que saberiam o que foi o Tropicalismo? Talvez para eles seja apenas folia, carnaval. Que seja, que seja alguma coisa! Faça-se o Carnaval. Afinal, o carnaval é lindo!

"Mas que juventude é essa? Que juventude é essa?"


Quem quiser conferir, aqui o discurso do Caetano pode ser encontrado na íntegra! Abraço a todos!




Leia Mais…

domingo, 8 de março de 2009

Um pouco de expressionismo.

Antes de tudo, devo lembrar que este artigo foi escrito por um 'pintor de domingo'. Vou me arriscar a falar de um movimento que me chamou muito a atenção logo que comecei a pintar.


O movimento expressionista surge como uma ruptura do movimento impressionista. Começa com algo que podemos chamar de pós-impressionismo, que vemos nos quadros do Van Gogh. Ainda é uma reprodução da realidade, mas sem a fidelidade de imagem e cores do romantismo e do impressionismo. As cores deixam de ser tão fiéis à realidade, os traços distorcidos passam a valorizar e projetar a expressão.
O pós-impressionismo evolui para o que chamamos de expressionismo. Neste, os quadros passam a abordar temas pesados como o sofrimento e a angústia humana. Utiliza-se uma imagem visual que nos remete a uma realidade interior.

Um dos grandes nomes deste movimento é Edward Munch, autor do quadro que podemos considerar o ícone do movimento, `Skrik` (noruegues) ou `O grito`(1893). Nele podemos ver claramente as características básicas do movimento como cores fortes, sem necessariamente condizer com a realidade, e distorções nas imagens ampliando a expressão do personagem.

Uma outra grande obra do Munch, que eu particularmente adoro é `Puberdade`. Neste quadro, a expressão da garota fala por ele. Timidez, repressão, vergonha, uma sombra exagerada... Entretanto, na minha opinão, a grande obra de Munch é a Madonna. Sobre ela vou dedicar um post completo.


No Brasil, o movimento expressionista comeca com Lasar Segall, pintor e escultor lituano que apresentou pela primeira vez a arte expressionista no território brasileiro, em 1913, numa exposicão individual em São Paulo e em Campinas. Ninguém entendeu o que ele fez ! Nem a crítica, muito menos o publico. Coube a Anita Malfatti que já conhecia o expressionismo das suas viagens de estudo à Alemanha e Estados Unidos, despertar para o público essa novidade na expressão artística na sua segunda exposição individual, em 1917. Sua obra foi recebida inicialmente pela crítica com grande desconfiança. Com um forte colorido e contrariando totalmente a pintura acadêmica, ela gerou acirradas discussões e controvérsias.
Em 14 de dezembro, o Correio Paulistano num trecho comentava:

"A exposição da senhorita Malfatti, toda ela de pintura moderna, apresenta um aspecto original e bizarro, desde a disposição dos quadros aos motivos tratados em cada um deles."

Nesta época Monteiro Lobato, famoso pelo seu conservadorismo e preconceito, lançou na imprensa uma crônica intitulada `A propósito da exposição Malfatti`. Nela o escritor comparava a pintura de Anita à dos loucos ou mistificadores.

"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura... Se Anita retrata uma senhora com cabelos geometricamente verdes e amarelos, ela se deixou influenciar pela extravagância de Picasso e companhia - a tal chamada arte moderna..".

Foi bastante cruel com a jovem pintora, mas sem querer provocou a reação de jovens intelectuais em defesa de Anita e o nascimento do movimento modernista no Brasil. Nesta época, por volta de 1910, o movimento cubista começava a nascer. No quadro de Anita ao lado `A mulher de cabelos verdes` podemos observar, além de alguns aspectos expressionistas, uma grande influência do cubismo.

E o expressionismo não ficou somente nas telas, atingiu o cinema, teatro, arquitetura, música e literatura. Na literatura podemos observar a influência do expressionismo nas obras de Kafka, 'A metamorfose' é um exemplo. No cinema temos como exemplo o filme Nosferatu, a Symphony of Horror (1922).



Referencias:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lasar_Segall
http://pt.wikipedia.org/wiki/Expressionismo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anita_Malfatti

Leia Mais…

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Ciência e religião, uma reflexão (Parte I)

Seria presunção da minha parte, embora pareça muito natural que se faça isso antes de promover uma discussão acerca do assunto que proponho, tentar definir religião e ciência. É verdade, pois, que nem mesmo os filósofos mais inspirados foram capazes de tal proeza, mas como preciso começar de algum ponto, darei aqui apenas o que chamo uma definição filosófica da ciência e da religião, dizendo que ambas são sistemas de conhecimento que fornecem interpretações do mundo - natural e social - através de verdades instituídas a priori e/ou construídas a partir de um senso comum. Cumpre dizer que tal definição de forma alguma representa a visão dos filósofos sobre tais assuntos e pode (e deve) estar equivocada, mas por enquanto é o melhor que temos, então sugiro que sigamos em frente.

Verdade é que cientistas e religiosos fornecem interpretações diferentes sobre o mundo, a vida, a natureza, o universo, etc, e nesse ponto há interpretações para todos os gostos. Há quem diga que interpretações científicas e religiosas podem coexistir; há quem diga que não. Há quem diga que os primeiros estão certos, mas aquilo que os mesmos (ainda, talvez) não explicam abre espaço para a visão religiosa (...). Einstein, frequentemente "disputado" em uma queda de braços sem fim entre religiosos e não religiosos, no que confere a sua posição religiosa, nos dá pistas sobre a questão quando dispara que

"A ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega."


Sinceramente, dizer que tal frase é uma pista sobre a religiosidade de Einstein é uma atitude muito otimista face às implicações filosóficas que ela fornece, mas ao menos nos dá alguma inspiração para debater o assunto.

Nesse ponto, me ocorre um conflito sobre minha posição com relação ao assunto, pois apesar de procurar não tomar partido de lado algum e apenas conduzir a discussão, não posso negar que, como matemático, tenho uma leve tendência a me sentir mais amigável com a posição científica, fato que me faz pedir sinceras desculpas ao leitor pelas vezes que tomarei as rédeas (por motivos bons ou ruins) e argumentarei de forma pessoal. Para aqueles que temem que atacarei a religião, peço que continuem a leitura para verem que esse não é o intuito (e nesse contexto, não conheço bons motivos para fazê-lo); se forem céticos quanto a essa minha afirmação, o que seria ótimo, leiam a conclusão do artigo, onde explico minha posição com relação a religião, e depois voltem à leitura, caso desejem. Já que toquei no assunto, aliás - embora, assumo, antes do que desejava - vou colocar aqui minha opinião e ao mesmo tempo justificar minha iniciativa em escrever este artigo. Imito Einstein na construção do meu argumento, e digo que



Religião com ciência é sensatez; Ciência com religião é desonestidade.


Este artigo pretende ilustrar essa minha opinião (e aqui existe um bom motivo para colocá-la, pois preciso dar foco ao artigo) com exemplos onde existem conflitos entre a visão científica e a religiosa, o que penso ser mais interessante e menos cansativo do que embrenhar uma justificativa mais "teórica", digamos assim. Também dividirei o artigo em duas ou três partes, para que lê-lo não se torne a coisa mais difícil a respeito do mesmo. Por enquanto, chega de conversa e vamos ao que interessa.



A religião como objeto de estudo da ciência


Em seu livro Quebrando o Encanto - A religião como fenômeno natural, Daniel Dennett, filósofo norte-americano e professor da Tufts University (Medford/USA), defende que a religião pode e deve ser estudada pela ciência. Dennett justifica sua posição dizendo que

"É mais do que tempo de submetermos a religião como fenômeno global à mais intensa pesquisa multidisciplinar possível, aliciando as melhores mentes do planeta. Por que? Porque a religião é algo muito interessante para que nos mantenhamos ignorantes a seu respeito. Ela não afeta apenas nossos conflitos sociais, políticos e econômicos, mas os próprios significados que encontramos em nossas vidas. Para muitas pessoas, provavelmente a maior parte das pessoas na Terra, não há nada mais importante que a religião. Exatamente por esse motivo, é imperioso que aprendamos o máximo que pudermos a respeito dela."

Concordo com Dennet, pois acho a religião demasiadamente interessante e influente em nossas vidas para que vivamos a margem dos seus segredos. Além disso, o quanto não poderíamos lucrar, em termos humanísticos, conhecendo melhor a religião? Guerras, miséria, fome, corrupção, crimes, etc; quanto dessas desgraças não poderiam ser evitadas, ou pelo menos abrandadas, se tivéssemos melhor conhecimento a respeito da religião? E quanto dessas não sofrem influências diretas (negativas ou positivas) da religião? Sem dúvidas, Dennett tem razão: é mais que tempo de colocarmos a religião sob os olhos da ciência, de todas elas, tais como a biologia, a antropologia, a história, a física, a sociologia, etc. É mais que tempo; é mais que sensato! Religião com ciência, como disse, é sensata! Contudo, acho que essa é uma via de mão única, o que significa que, embora penso que a ciência deva investigar diretamente a religião, o contrário não deve acontecer de forma alguma. Devido a isso, provavelmente serei chamado de hipócrita por alguns dos que leram meu artigo de apresentação aqui no blog (What the bleep do you know? O blog Causarum Cognitio), onde digo que usarei da imparcialidade nos artigos aqui postados. Talvez tenham razão, talvez não, mas o fato é que, insisto, a religião não deve estar presente na ciência, simplesmente por uma questão de honestidade intelectual (e também porque não queremos os químicos, por exemplo, manipulando nossos remédios e tendo fé que eles funcionem, ao invés de testá-los). Justificarei essa minha opinião, aparentemente parcial e presunçosa, na segunda parte deste artigo. Por enquanto, para nos dar alguma base argumentativa, vamos dar uma rápida investigada no passado e ver como foi essa relação da ciência com a religião, e também como ela é hoje.



Uma breve história do tempo...


Historicamente, ciência e religião tem tomado a frente quando o assunto é explicar a natureza das coisas, da vida e do universo. Vimos a religião dominar mesmo o pensamento das grandes mentes da antiguidade, de tal forma a estar intimamente ligada com a filosofia e a ciência da época, perdurando imponente até a idade média. A história nos mostra, contudo, a humanidade emergir do obscurantismo desse período e mergulhar no pensamento renascentista, deixando de lado a visão completamente teísta para uma mais humanista, antropocentrica. Com o passar dos séculos, o secularismo se instaura em boa parte do mundo ocidental e antigos conceitos fundados pela igreja são substituídos por conceitos científicos, tais como o heliocentrismo e o evolucionismo, substituindo o geocentrismo e a verdade literal da bíblia, respectivamente. A igreja, por outro lado, defende seu território: instaura a Inquisição, a Caça às Bruxas, o Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), etc, ao mesmo tempo que tenta conciliar alguns de seus dogmas com verdades científicas irrefutáveis (aceitação do heliocentrismo, por exemplo); perde espaço através dos anos, e dessa forma procura colocar sua posição na mídia, na ciência, nas escolas, na sociedade, etc, na busca pelos fiéis e procurando preservar seus dogmas, causando atualmente, como chamo ironicamente aqui, uma contrarreforma científica, levando inúmeros cientistas, céticos, críticos e ateus a defender o espaço da ciência. Exemplos não faltam: Carl Sagan, Sam Harris, Richard Dawkins, Daniel Dennett (citado acima), Steven Pinker, Christopher Hitchens, etc. E a coisa é séria! Tanto que hoje existe nos Estados Unidos e em alguns lugares da europa o movimento dos não crentes The Brights (algo como "Os Brilhantes", em português, título que, aliás, já causou muita polêmica), que defende uma visão de mundo naturalista. Enquanto isso...



A questão do misticismo na ciência


A margem desta guerra, mas muito provavelmente inpirados por ela, oportunistas de todos os tipos tentam conciliar ciência e religião, ou ciência, misticismo e religião, (ab)usando da confiança depositada pelas pessoas na ciência. A lista é grande: místicos, médiuns, astrólogos, pseudocientistas, cartomantes, visionários, curandeiros e todo mais um bando de "profissionais" inescrupulosos que falam em nome da ciência e prometem em nome da religião (e o contrário também). Para quem quiser entender melhor o que estou falando, basta dar uma breve olhada (breve mesmo) no "documentário" What the bleep do you know? (Quem Somos Nós?) e no livro/filme The Secret (O Segredo), que usam (assim como outras investidas charlatanistas) todo tipo de estratégia - tal como marketing e frases de autoajuda - para defender suas idéias pseudocientíficas, principalmente a pobre da Física Quântica, alvo preferido dos adeptos do "a física quântica realmente começa a apontar para esta descoberta: ela diz que você não pode ter o universo sem a mente fazendo parte dele..." ou mesmo "está provado cientificamente que um pensamento afirmativo é centenas de vezes mais poderoso que um pensamento negativo..." (esta última frase foi dita por um visionário - sim, um visionário - no filme "The Secret"). E eu me pergunto é como se mede um pensamento, ou como um visionário sabe coisas sobre o pensamento que hoje nem um neurocientista, um biólogo e um cientista cognitivo juntos saberiam responder! Vai entender...
É uma pena, pois, saber que essa onda de misticismo acerca da ciência envolve algumas vezes opiniões positivas de acadêmicos com grande gabarito intelectual, tais com a Dra. Leila Marrach Basto de Albuquerque, professora da UNESP, campus de Rio Claro/SP. Coloco abaixo um trecho de seu artigo que trata do assunto, onde a professora descreve a situação atual com suas palavras, e que pode ser encontrado na íntegra no Portal Unesp (Ciência e religião no tempo em que vivemos):


"Hoje, o religioso se expressa na linguagem da ciência e o cientista usa a linguagem das religiões. Filósofos esperam construir uma prática científica mais gentil com o auxílio de idéias religiosas. Sociólogos se voltam para o oriente em busca de sabedoria. Concepções de uma natureza animada e panteísta inspiram projetos ambientalistas. Astrônomos explicam o universo pelo seu poder criativo. Astrólogos auxiliam psicólogos na árdua tarefa de tornar as experiências humanas menos penosas. Médicos atestam a importância da religiosidade no tratamento e cura de doenças. Cientistas identificam equivalências entre o misticismo oriental e os modelos mais avançados da física. A compreensão da mecânica quântica é comparada ao estado de iluminação budista. Ondas, moléculas e átomos ganham sentidos transcendentes, distantes do materialismo científico. Energias revitalizam pessoas, objetos e moradias. Velhos esoterismos são recuperados, xamanismos são mobilizados e o criacionismo substitui, nas escolas, a nossa tão cara idéia de evolução. Uma folia!"


Com todo respeito à professora, que aliás é uma grande pesquisadora e especialista em sua área, a sociologia, fato evidenciado pelo seu currículo, devo dizer que discordo fortemente das suas opiniões acerca desse novo pensamento místico-religioso-científico, no que cabe às suas conclusões envolvendo as ciências naturais e exatas, pois não existem provas científicas que comprovem, por exemplo, que "energias revitalizam pessoas, objetos e moradias", nem evidências sérias ou relatos concretos que mostrem que "astrônomos explicam o universo pelo seu poder criativo" (o que seria o poder criativo do universo?), pelo menos não de astrônomos sérios comprometidos com a ciência e com a metodologia científica; tampouco podemos concluir que "ondas, moléculas e átomos ganham sentidos transcendentes, distantes do materialismo científico", a menos que se leve em conta cientistas místicos como o indiano Amit Goswami, "físico quântico" e místico assumido que, desde praticamente vinte anos atrás não pública um trabalho com credenciais científicas reconhecidas pelas universidade onde trabalha (em breve o Rafael Viegas, que é físico, postará um artigo sobre Física Quântica e outro sobre o Amit Goswami, mas para quem quiser conferir algo sobre o assunto desde agora, no mesmo Portal Unesp podemos encontrar o excelente artigo Mecânica Quântica garante que a consciência altera a realidade?, do físico Dr. Leonardo Sioufi Fagundes dos Santos). Para ser sincero, a única coisa que concordo com a professora nesse trecho do seu artigo, no que cabe ao contexto do período atual, é que tudo está "uma folia!". Folia sim, mas verdade científica, isso eu duvido muito.



Conclusão


Para finalizar, digo que o intuito dessa breve contextualização histórica e dessa caracterização do cenário atual (incluindo aqui o misticismo), bem como o exemplo que trouxe da professora Leila, é apenas para mostrar a disputa entre a ciência e a religião, assim como a mistificação da ciência. Finalmente, na segunda parte do artigo, discutiremos o quanto a religião deve interferir na ciência, onde defenderei com alguns exemplos que essa interferência não deve existir, simplesmente por uma questão de honestidade e sensatez.
Concluo dizendo que este artigo não tem por objetivo desmoralizar a religião e fincar uma defesa armada da ciência, no ponto que chamei acima de "guerra", mas sim argumentar no sentido que, independentemente da religião estar mais ou menos correta que a ciência, a mesma (religião) não deve estar presente em campos que, definitivamente, estão sob o domínio dos cientistas, tais como o ensino sobre a origem da vida nas escolas e questões acerca da aids, do uso de preservativos ou mesmo sobre curas usando células tronco embrionárias, temas esses confirmados para a segunda parte. Com relação aos místicos que usam da ciência como escudo para suas imposturas e pseudoverdades, estes sim merecem, justificadamente, um levante por parte dos cientistas, mas não falarei deles (neste artigo) mais do que já falei acima. Sendo assim, termino por aqui. Em breve continuo com a segunda parte! Obrigado pela leitura!

P.S.: Me perdoem pelo tamanho do artigo pessoal. Vou tentar deixar a segunda parte mais curta. Até lá!


Referências

- Quebrando o Encanto: a religião como fenômeno natural - Daniel C. Dennett; [tradução Helena Londres], - São Paulo: Globo, 2006.
- http://www.unesp.br/aci/debate/religiao.php
- http://www.unesp.br/aci/debate/quantica.php


Leia Mais…

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

What the bleep do we know? O blog Causarum Cognitio

Não, esse não é mais uma artigo sobre os desvaneios quânticos/pseudocientíficos do famoso - mas não menos, digamos, pertubador - documentário "What the bleep do we know?" ou, na boa e velha adaptação para o português, "Quem Somos Nós?". Na verdade, essa foi uma tentativa de criar um título criativo para responder sobre os interesses do Causarum Cognitio, além de que achei que seria engraçado o trocadilho, se comparado com a filosofia do blog. Provavelmente não tenha sido, mas enfim... Com relação a escrever algo sobre "What the bleep do we know?", essa seria uma boa idéia; tão boa que já foi colocada em prática no excelente "O Dragão da Garagem", blog do qual sou leitor assíduo. Se o Widson e o Alexandre permitirem, a propósito, em breve o blog deles estará ai ao lado, na nossa lista de blogs favoritos.

Causarum Cognitio é o nome original de um famoso afresco pintado, a pedido do Papa Júlio II, por um dos maiores pintores de todos os tempos, o italiano Rafael Sanzio (1483-1520), a fim de que o mesmo compusesse a "Stanza della Segnatura" (Sala da Assinatura), localizada no Palácio do Vaticano, sala que o papa usava como biblioteca e assinava os decretos da corte eclesiástica. Causarum Cognitio é latim, e significa "O Conhecimento das Causas". De acordo com o matemático inglês David Fowler, que estudava a história da Grécia, após o século XVII o quadro tomou o nome com o qual é conhecido hoje, Scuola di Atenas, ou, em português, A escola de Atenas. Nele, Rafael retratou os maiores pensadores do mundo antigo, de diferentes épocas, em especial pensadores gregos, representando a academia de Platão. Este último aparece no centro do afresco, do lado direito de seu discípulo, Aristóteles, segurando o Timeu e com a mão direita voltada para cima, representando o seu "mundo das idéias", a "causa de todas as coisas". Aristóteles, por outro lado, enquanto segura sua obra Ética a Nicômaco, tem a mão direita voltada para o chão, representando o mundo terreno, sensível.


Dentre outros, também aparecem em A Escola de Atenas Alexandre, o Grande, Pitágoras, Ptolomeu, Euclides, Sócrates e Hipácia de Alexandria, morta cruelmente em 415 por ordem do bispo e patriarca de Alexandria, Cirilo (que mais tarde foi canonizado e hoje é santo Cirilo) , por ser defensora da idéia de que o mundo é governado por leis matemáticas e ensinar tais idéias na Academia de Alexandria. Voltarei a esse assunto num próximo artigo, mas por enquanto fica a dica para que possamos conhecer um pouco mais sobre essa fantástica mulher, que é umas das maiores personalidades femininas da história da ciência.

Ora, nem precisaria dizer que nenhum dos autores se compara a Aristóteles, ou a Euclides , ou a Sócrates, por exemplo, mas a ousadia nos permitiu nomear esse blog com o mesmo nome que o afresco de Rafael, no sentido que, assim como na academia de Platão, o blog seja um lugar de debate de idéias. Ensaios sobre ciência, filosofia e cultura, que é o subtítulo do blog, talvez represente bem esse nosso desejo e deixe ainda mais clara a opção que fizemos pelo título do blog. Não, com certeza não nos comparamos aos filófosos, pensadores e cientistas naturais retratados por Rafael, a nenhum deles, mas antes disso, e mais importante que isso, é que somos movidos pela paixão ao conhecimento, pela inquietude frente às questões que merecem uma postura crítica, pela curiosidade que nos toma quando somos colocados frente aos interesses da ciência, pelo fascínio à natureza, à vida, às artes, ao mundo que nos cerca e a forma como interpretamos e interagimos com o mesmo. Criar um blog, concluímos, seria uma ótima forma de tornar transparente nossas idéias sobre os assuntos em questão. E aqui está ele, Causarum Cognitio, um blog que, embora tenha interesse em assuntos amplos e diversificados, será calcado no pensamento crítico, no ceticismo e na imparcialidade. Ademais, estamos abertos às críticas e sugestões. Quanto à resposta para what the bleep do we know?, penso que a mesma já esteja respondida nesse instante. Se não estiver, pelo menos o texto não será por completo em vão. Para aqueles que acham que tal trabalho não vale a pena, ou que a paixão pela filosofia, pelas filosofias, não representa algo de nobre ou não careça de iniciativa, cito Descartes e termino.


"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir"

Boa leitura a todos, e sejam bem vindos ao Causarum Cognitio.

Referências:
- http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Rafael.htm
- http://www.fau.ufrj.br/prolugar/arq_pdf/dissertacoes/Dissert_Michael%20D%20Hosken%202005/12%20-%20MDHA%20-%201%20-%20%20FUNDAMENTACAO%20TE%E0RICA.pdf
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Atenas
- http://br.geocities.com/perseuscm/hipacia.html


Leia Mais…
 
BlogBlogs.Com.Br